Plano Vaqueano
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Hugo Ramires

PLANO VAQUEANO DE PROMOÇÃO DA CULTURA REGIONAL E DE REATIVAÇÃO DA VIDA SOCIAL DOS CETEGÊS (uma metodologia operacional)
 
A - OBJETIVOS


Metodologia para dinamizar o Tradicionalismo

1) Reativar o entusiasmo dos tradicionalistas pela vida social de seus CTGs e do movimento em geral.

2) Estimular o espírito empreendedor dos sócios dos CTGs na obra de identificação das raízes tradicionais de cada comunidade gaúcha, de modo a afirmar o sentido de UNIDADE da Cultura Gaúcha.

3) Proceder ao levantamento iconográfico de todo o Estado.

4) Incentivar a identificação social e a mais ampla participação do povo gaúcho, em prol dos ideais do Movimento Tradicionalista, em geral, pelos CTGs em particular.

5) Sugerir um programa básico de realizações culturais em cada CTG.

 
B - CONSTITUIÇÃO DO PLANO


I) Dinamização da vida associativa de cada CTG, estabelecendo um PLANO VAQUEANO de ação para todas as Invernadas do CTG, a iniciar pela INVERNADA SOCIAL, com a cooperação fraternal da INVERNADA ARTÍSTICA, da INVERNADA CULTURAL e da INVERNADA CAMPEIRA. Para isso, deve ser programada uma grande REUNIÃO MENSAL dançante e CHIMARRÕES SEMANAIS ao pé do fogo (chimarrões das três últimas invernadas acima citadas).

II) A reunião dançante deve visar a animação e a aproximação cordial de todos os sócios, em função do fandango, ou seja, da RECREAÇÃO, contando com a participação ativa da INVERNADA ARTÍSTICA que terá a seu cargo apresentar, na primeira parte da reunião, um PROGRAMA ESPECIAL constante de números de músicas, declamações, surpresas e danças folclóricas (estas a cargo do Piquete de Danças da Invernada Artística ou, quando for o caso, de Piquetes ou Conjuntos de visitantes).

III) Os CHIMARRÕES SEMANAIS deverão ter por finalidade:

1) Dar ciência a todos os sócios das notícias estaduais, regionais e locais que interessam ao Movimento Tradicionalista em geral (inclusive notícias ou informações de caráter internacional ou nacional relativas, por exemplo, ao folclore, aos estudos regionalistas, etc.).

2) Cultuar as efemérides estaduais, regionais e locais.

3) Relembrar personalidades estaduais e locais que, de um ou outro modo, hajam marcado sua vida por atos de pioneirismo, heroísmo ou benemerência, quer se trate de vultos da produção (lavoura, indústria e comércio), da vida pública (militares), políticos, das artes ou da literatura, da ciência, da religião, da imprensa, da medicina ou da enfermagem, da assistência social, etc.

4) Constituir Bibliotecas e Arquivos de registros gravados, fotográficos, fílmicos ou de documentação gráfica de:

a) narrativas e descrições militares, históricas, cívicas, etc;

b) lendas, décimas, melodias;

c) práticas campeiras, costumes e procedimentos peculiares;

d) relatos humorísticos, adágios e expressões típicas;

e) coreografia típica do local ou da região;

f) técnicas artesanais;

g) receitas culinárias (cozinha e doçaria);

h) superstições, crendices, oragos, tradições religiosas;

i) depoimentos sobre arqueologia e etnografia locais, etc., de modo a ensejar o mapeamento da cultura local, em todos os seus aspectos e minúcias.

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7) Efetuar, por conta própria ou com auxílio de fora, cursos sobre aspectos gerais ou específicos, estaduais ou locais, da cultura gaúcha.

Promover, periodicamente, com o sentido de estímulo sistemático e de animação cultural e social, concursos, torneios, exibições públicas ou internas de História, Poesia, Dança, Canto individual ou de conjunto, composição musical gaúcha ou nativista, execução instrumental, de mitografia, pesquisa, culto cívico, declamação, domas, tiros de laço, carreiras, cavalhadas, rodeios, desfiles, quermesses, excursões, piqueniques, etc., com a instituição de prêmios para os primeiros colocados nos concursos, e de regalos para os principais animadores de cada iniciativa.

Promoção de difusão de programas radiofônicos e televisionados, e do noticiário de jornal (localmente e na capital do estado), informando sobre as atividades do CTG, da Zona (RT) e do MTG, bem como difundindo conhecimentos tradicionalistas para o povo em geral.

IV) Levantamento do Mapa Iconográfico de todo o RGS, desenvolvendo uma grande campereada cívica cultural e turística, no sentido de balizar, em cada rincão do Estado, mediante a instituição de museus, monumentos, obeliscos, placas e outros tipos de marcos e referências:

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7) Os lugares pitorescos de natureza estética e turística, inclusive assinalando portadas de ingresso dos municípios, através de construções típicas e legendas gauchescas de saudação e localização. Os locais de episódios cívicos (guerreiros ou políticos) do nosso passado de cada rincão (independente de caráter faccioso ou partidário dos vultos envolvidos). Os marcos nucleadores dos diferentes povoamentos locais, através da identificação de áreas de concentração indígena, luso-brasileira ou imigrantista (mapa da formação étnica). Os pontos de nascimento ou de residência de personalidades eminentes ou prédios em que tiveram lugar acontecimentos de interesse geral (por exemplo: Primeira Câmara Municipal, 1ª Intendência, 1ª Escola, 1ª Tipografia, 1ª Igreja ou Capela, 1º jornal, revista ou livro impresso no município, etc.). A relação dos primeiros músicos, professores, médicos, poetas, etc., do município ou da região. A localização urbana dos elementos sociais da comunidade (canchas de carreiras, clubes, escolas teatros, foros, jornais, hospitais, senzalas, charqueadas, cadeias, trincheiras, etc.). Criação de Semanas Municipais de festas cívicas, econômicas, de culto a Vultos Representativos do passado local, de notório espírito público ou de invulgar talento e iniciativa (exemplo: Semana Ramiro Barcelos, Semana Assis Brasil, Semana Lobo da Costa, ou Feira da Trança Crioula, Feira da Lã, Feira do Leite, dos Aperos, etc.).

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XV) Programação de Cursos e Certames Públicos de Artes Plásticas (cerâmica, desenho, pintura, escultura, gravura) de autoria de artistas locais, do Estado, ou de artistas gaúchos de países irmãos, sobre motivos humanos ou paisagísticos locais ou regionais, com a instituição de Prêmios, Bolsas de Estudo e outros estímulos do talento criador, de modo a ampliar a força criadora e a originalidade na técnica e na arte do RGS.

Incentivo permanente ao ensino da História do RGS, nos níveis de ensino primário, secundário e universitário, incluindo o técnico, de escolas particulares e do Estado. Dar todo o destaque e auxílio ao ensino dos conhecimentos sobre o RGS, ministrado pela escola primária, oficial ou particular. E, no sentido de fomentar a cultura tradicionalista entre as crianças e os adolescentes, incentivar o funcionamento de departamentos ou invernadas mirins, nos CTGs como nos educandários e instituições culturais.

Edição, por conta própria do Movimento Tradicionalista, ou através de convênios com editoras privadas, da Biblioteca de Autores Gaúchos (que poderá vir a ser chamada Gauchesca, Gaúcha, Rio-grandense ou Rio-grandina, etc.).

Edição da Discoteca de Poesia e de Músicas Regionais do RGS (com poemas falados na interpretação do próprio autor, para acentuar o caráter documental), procedendo, de modo especial, ao registro de melodias antigas e peculiares de cada região. (Discoteca e fitoteca). Exame e debate periódico das condições sócio-econômicas do Estado, da região e do município, elevando o CTG à condição de órgão natural de promoção ou assessoramento de estudos destinados à vitalização econômica da comunidade, estimulando a industrialização de artefatos típicos (arreios, palas, botas, cintos, guaiacas, facas, placas, etc.) e abrindo, permanentemente, condições de renovação e ampliação das perspectivas locais de progresso, de modo a ensejar o surto de novos e mais rendosos empreendimentos da lavoura, do comércio, da indústria e da cultura espiritual locais.

Assistência humanitária, sanitária, escolar, técnica e orientacional do gaúcho pobre que estiver desamparado por força da ignorância, da doença ou do desemprego, de modo a garantir a radicação dele próprio e de sua prole, com trabalho e subsistência, garantidos na comunidade de origem. Anualmente, campanhas populares pró-habitação, alimentação, vestuário, instrumentos de trabalho, remédios e hospitalização pessoal, bem como para arranjar empregos devem ser desenvolvidas pelo CTG. Cabe aqui o exame das condições objetivas de cada CTG, no sentido de poder desdobrar, de modo sistemático, uma operação análoga a que, noutro plano e com outros recursos, vem desdobrando o chamado Projeto Rondon. (Exemplos: Carreta do Agasalho, Aulas de Alfabetização ou de Corte e Costura, Datilografia, Mecânica, Tecelagem, Trançaria Crioula, condução de Veículos Agrários, etc.).

Defesa sistemática das Reservas Indígenas do RGS, através de empreendimentos sociais dos CTGs, visando o enquadramento e o amparo efetivo, dentro das linhas da civilização e do Tradicionalismo, dos derradeiros núcleos aborígenes do Estado, conforme ficou aprovado no X Congresso, realizado em Uruguaiana, em 1964.

Sugestões insistentes às direções das Faculdades de Filosofia ou de Letras e Ciências (ou Educação), e às Escolas de Jornalismo, para que instituam a Cadeira de Estudos-Rio-grandenses (ou Cultura Gaúcha), antiga aspiração do Movimento Tradicionalista, aprovada desde o I Congresso, em 1954, em Santa Maria da Boca do Monte.

Restauração, preferencialmente, sob forma autárquica, ou, não sendo possível subordinado ou à Secretaria de Educação, ou ao Serviço Estadual de Turismo, do Instituto Rio-grandense, ou Gaúcho da Tradição (ou instituto da Tradição Gaúcha), independente da Escola ou Instituto de Folclore que tem objetivos específicos, sendo a sua administração preenchida, mediante consulta aos principais órgãos dirigentes do Movimento Tradicionalista, por figuras exponenciais da cultura do RGS, reconhecidamente vinculadas ao estudo e à promoção do Tradicionalismo.

Defesa da avifauna e da flora do RGS, mediante iniciativas e campanhas esclarecedoras e da criação de Parques Regionais, disseminados entre os diferentes pontos sócio-geográficos do Estado de que forem nativos os exemplares zoológicos e vegetais.

Valorização permanente mediante toda série de estímulos, das células-nucleares da civilização rio-grandense, como Santo Ângelo, São Luiz, São Borja, na zona missioneira dos 7 Povos ou, na área luso-brasileira, Rio Grande, São José do Norte, Viamão, Rio Pardo, Santo Antônio da Patrulha, Pelotas, focos de irradiação cívica, econômica e militar: Piratini, Caçapava e Alegrete, as três capitais-berços de grandes heróis e vultos exponenciais da vida gaúcha, como Taquari, São Gabriel, Triunfo, Cachoeira, Bagé, etc., de modo a erigir à condição de santuários de civismo as cidades mais antigas da cultura gaúcha básica.

Publicado na íntegra no Diário de Notícias de 17.05.1970

OBS.: Plano aprovado com louvor pelo 15º Congresso Tradicionalista Gaúcho, realizado em janeiro de 1969, na cidade de São Francisco de Paula.


Hugo Ramires - Tradicionalista