Conceituações
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TRADIÇÃO
 
A palavra tradição vem do latim, do verbo "tradere" (traditio, traditionis) que significa trazer, entregar, transmitir, ensinar. Logo, tradição é a transmissão de fatos culturais de um povo, quer de natureza espiritual ou material, ou ainda é a transmissão dos costumes feita de pais para filhos no decorrer dos tempos, ao sucederem-se as gerações. É a memória cultural de um povo. É um conjunto de idéias, usos, memórias, recordações e símbolos conservados pelos tempos, pelas gerações, sendo assim a eterna vigilância cultural.

Augusto Meyer, em artigo no Correio do Povo de 2 de junho de 1927 assim manifestou-se:

"Tradição é desejo de claridade.

Chega um momento na vida em que o homem, ante as flutuações do seu espírito, quer chegar a uma "estrada real" no meio dos mil "sendeiros" que abrem aos seus olhos cobiçosos o fascínio da aventura.

A Tradição é justamente essa força que nunca admite as imposições individuais. Ela obriga à humildade, como tudo o que está acima e além do homem.

Quando muito, a Tradição quer ser adivinhada em suas formas e penetrada com a inteligência. E a inteligência, nesse caso, é o amor pela terra. O qual, nem procura justificar-se. Mas procura SER, afirmando ".

Barbosa Lessa, em seu trabalho "Caráter Cíclico do Tradicionalismo", referindo-se a tradição assim diz: "Um culto que se renova. ... Na etapa seguinte, ao influxo da II Guerra Mundial, quando Jean-Paul Sartre intrigava os espíritos com sua filosofia existencialista, foi um outro jovem, Paixão Côrtes, com 19 anos, que, entre extrair o SER do nada ou extraí-lo da Tradição -- uma vivência coletiva e real --, preferiu convocar seus colegas ginasianos para a ação, afirmativa, no Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos.

Da mesma forma que, hoje, o guri Renatinho Borghetti, com 19 anos, sacode a Era do Som com sua gaitinha de oito baixos e identifica-se com a garotada através dos cabelos compridos, das alpargatas, do informalismo das barracas nos Festivais de Música Nativista.

Espontaneamente. Sem saber que está fazendo História e Cultura".

Antonio Augusto Fagundes referindo-se a tradição diz: "Em Direito, tradição significa entrega. Em seu sentido mais amplo, que é o que interessa para o presente estudo, tradição quer dizer o culto dos valores que os antepassados nos legaram. Todo o grupo social, toda a nação tem sua própria escala de valores e é essa escala que torna os povos distintos entre si."

A História iniciou, quando o homem articulou, balbuciou ou pronunciou as primeiras palavras. E o homem só registrou sua história, quando fixou a palavra através da escrita. Antes da escrita, tudo é pré-história.

A linguagem é o veículo de transmissão da tradição, sendo ela o elemento fundamental de qualquer sociedade, de qualquer povo.

A tradição, muito embora não seja uma ciência, está dividida em:

* TRADIÇÃO HISTÓRICA : que se destina a transmissão da memória de fatos ou de vultos notáveis e é preservada de duas importantes formas: através de documentos tais como: cartas, biografias, calendários, anais, compêndios e outras formas; bem como através de monumentos como restos, vestígios, túmulos, palácios, obras de arte, brasões, moedas e outros.

* TRADIÇÃO POPULAR : destina-se ao registra dos fatos culturais que são preservados pela oralidade ou mesmo pela aceitação coletiva.

Vejamos :

* Tradição histórica é folclore? Não

* Tradição popular é folclore? Sim

* Folclore nascente é tradição? Não

* Folclore vigente é tradição? Não

* Folclore Histórico é tradição? Não

* Cultura de massa é tradição ou é folclore? Nenhum dos dois.

Nós os gaúchos, que também, com muito orgulho, somos brasileiros, nos distinguimos dos outros brasileiros, como de outros povos e de outros grupos sociais, porque temos uma escala de valores muito característico e que nos torna diferentes dos demais.

Faz-se necessário ressaltar, que a tradição não é uma peculiaridade exclusiva de nós os gaúchos, uma vez que todos os povos têm sua tradição. Mas nós os gaúchos temos a nossa tradição, a nossa escala de valores, que é peculiar a nós os gaúchos.

Glaucus Saraiva, na obra Manual do Tradicionalista, diz: "Tradição é o todo que reúne em seu bojo a história política, cultural, social e demais ciências e artes nativas, que nos caracterizam e definem como região e povo. Não é o passado, fixação e psicose dos saudosistas. É o presente como fruto sazonado de sementes escolhidas. É o futuro, como árvore frondosa que seguirá dando frutos e sombra amiga às gerações do porvir. "

Glaucus Saraiva, na mesma obra, cita ainda Hélio Rocha que diz:

"Tradição não é simplesmente o passado.

O passado é o marco. A Tradição é a continuidade.

O passado é o acontecimento que fica. A Tradição é o fermento que prossegue.

O passado é a paisagem que passa. A Tradição é a corrente que continua.

O passado é a mera estratificação dos fatos históricos já realizados. A Tradição é a dinamização das condições propulsoras de novos fatos.

O passado é estéril, intransmissível. A Tradição é essencialmente fecundadora e energética.

O passado é a flor e o fruto que findaram. A tradição é a semente que perpetua.

O passado é o começo, as raízes. A Tradição é a seiva circulante, o prosseguimento.

O passado explica o ponto de partida de uma comunidade histórica. A tradição condiciona o seu ponto de chagada.

O passado é a fotografia dos acontecimentos. A tradição é a cinematografia dos mesmos.

Enfim: Tradição é tudo aquilo que do passado não morreu."

Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes, na obra "Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul", referindo- se a tradição gaúcha, assim define: "Tradição Gaúcha significa o rico acervo cultural e moral do Rio grande do Sul, no campo literário, folclórico, musical, usanças, adagiário, artesanato, esportes e atividades rurais"

Salvador Ferrando Lamberty referindo- se a tradição gaúcha diz: " Essa tradição, que nasceu nos galpões de campanha, chegando às cidades, conquistando todas as classes sociais, é o pedestal do ideal libertário do sulino.

Nosso acervo cultural retrata a paisagem sem fim de nossos campos, cortados pelos tropeiros, os rangidos choromingantes das carretas de bois e o grito sentinela do quero-quero.

O povo gaúcho deve orgulhar-se de possuir tão bela tradição. É um pedestal que ostenta o chimarrão, a doma, o fandango, o pealo, a marcação, as lendas, as pilchas, a música, a poesia, os causos, as trovas, etc. A vida passa do real para a fantasia, nas narrativas do Negrinho do Pastoreio, Lenda do Jarau, Boitatá, Angüera, etc. As fascinadoras danças da Chula, Facões, Anu, Pezinho, Chimarrita, Balaio e outras apresentadas pelos grupos de danças ou ainda as de salão como o Chote, a Valsa, a Polca, etc.

A tradição gaúcha fecundou o nascimento de um ritmo musical eminentemente gauchesco, com cheiro de terra o Bugio.

Em 1983, Barbosa Lessa, no trabalho "Caráter Cíclico do Tradicionalismo", diz: "Causa estranheza o fato dos historiadores do tradicionalismo -- como Helio Moro Mariante em publicação oficial do Instituto de Tradição e Folclore -- ou seus críticos -- como Tau Golin -- terem ignorado completamente o regionalismo dos anos 20, a importância de João Pinto da Silva, o pensamento de Augusto Meyer".

No entanto, aquela etapa é essencial para a compreensão do que vem ocorrendo com a cultura desde os anos 90 do século passado. Ou seja: ciclicamente, de trinta em trinta anos, ao ensejo de alguma rebordosa mundial ou nacional, e havendo clima de abertura para as indagações do espírito, termina surgindo algum "ismo" relacionado com a Tradição.

Assim foi com o gauchismo dos anos 90. Com o regionalismo dos anos 20. Com o tradicionalismo dos anos 50. Com o nativismo de agora. E sou capaz de jurar que lá pelo ano 2010 surgirá uma espécie de telurismo antinuclear ou cibernético, resultante da inquietação de analistas de sistemas em conluio com artistas plásticos, incluindo cartunistas e comunicadores visuais.

É claro que, de acordo com cada época, modifica-se a dinâmica e o campo de ação. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa: expressão de amor à gleba e respeito ao homem rural".

MARIA IZABEL T. DE MOURA

 
BIBLIOGRAFIA

LAYTANO, Dante – Folclore do Rio Grande do Sul – costumes e tradições gaúchas.

BARBOZA, Maria Cândida – Aspectos de Folclore -Tradição – Cultura

LAMBERTY, Salvador Ferrando

SARAIVA, Glaucus – Manual do Tradicionalista

BARBOSA LESSA, Luiz Carlos - Nativismo

FAGUNDES, Antonio Augusto – Curso de Tradicionalismo Gaúcho

TEIXEIRA, Edilberto – Tentos de uma mesma trança – publicado no jornal "Tradição" / 31 de março de 1987.

LESSA, Luiz Carlos Barbosa – Caráter Cíclico do Tradicionalismo

Nativismo – um fenômeno social do gaúcho.

 
TRADICIONALISMO


O tradicionalismo é um estado de consciência, que busca preservar as boas coisas do passado, sem conflitar com o progresso, através do cultuar, vivenciar e preservar o patrimônio sócio-cultural do povo gaúcho. É a sociedade que defende, preserva, cultua e divulga a tradição gaúcha, que congrega defensores dos costumes, dos hábitos, da cultura, dos valores do gaúcho. O tradicionalismo tem uma filosofia de atuação, tem objetivos expressos nas teses O SENTIDO E O VALOR DO TRADICIONALISMO de Luiz Carlos Barbosa Lessa e na CARTA DE PRINCÍPIOS de Glaucus Saraiva da Fonseca. É um movimento planificado e regulamentado, com uma administração decentralizada, através das Regiões Tradicionalistas, que coordenam OS PÓLOS SOCIAIS E CULTURAIS, que são as entidades tradicionalistas, conhecidas como Centro de Tradições Gaúchas e entidades a fins filiadas ao MTG. Toda esta estrutura organizacional é administrativa, é orientada e coordenada pelo MTG, através do Conselho Diretor e Coordenadorias Regionais. Por ser uma sociedade, depende da atuação de cada tradicionalista., que é o grande soldado, o maior e imprescindível responsável pelo cultuar e divulgar a tradição, ou seja, a gama patrimonial gaúcha. O TRADICIONALISTA é um “homo sapiens”, ou seja, é o ser que sabe que sabe, é o ser que está no mundo com ciência, com sabedoria, dotado de inteligência, é um ser pensante e eminentemente social.

O Patrono do Tradicionalismo é João Cezimbra Jacques, o “Precursor do Tradicionalismo.

MARIA IZABEL T. DE MOURA

 
FOLCLORE


Foi Willian John Thoms, um arqueólogo inglês, o criador do termo, da palavra Folk –lore, aportuguesada para folclore, que significa folk = povo e lore = saber, conhecimento. Em 22 de agosto de 1846, a revista The Atheneun, de Londres, publicou a carta de Willian, na qual era proposta a criação da palavra, para designar "os estudos dos usos, costumes, cerimônias, crenças, romances, refrões, superstições, etc. Portanto o dia 22 de agosto foi institucionalizado como dia do folclore, no mundo.

No Brasil, o Dia Nacional do Folclore foi decretado em 1965, pelo Presidente Humberto Castelo Branco, visando "assegurar a mais ampla proteção às manifestações da criação popular não só estimulando sua investigação e estudo, como ainda defendendo a sobrevivência dos seus folguedos e artes, como elo valioso da continuidade tradicional brasileira"

Folclore é a ciência que estuda a cultura espontânea do grupo social, que estuda todas as manifestações espontâneas do povo que tem escrita ( povo gráfico), tanto do ponto de vista material, quanto espiritual. Como o próprio nome sintetiza, é a ciência do povo, são as tradições, os costumes, as crenças populares, o conjunto de canções, as manifestações artísticas, enfim, tudo o que nasceu do povo e foi transmitido através das gerações.

Fato folclórico define – se como parcela do conhecimento humano que se transmite no tempo e no espaço, de geração a geração, de camada cultural a camada cultural, sem ensino formal (em escolas ou livros). Elemento dinâmico da cultura, modifica-se e transforma-se de região para região de acordo com o meio físico e social. São os modos de pensar, sentir e agir de um povo, preservados pela tradição popular pela imitação, sem influência de círculos eruditos. É o objeto de estudo do Folclore.

Desta forma, temos Folclore (substantivo próprio) e folclore (substantivo comum). Veja: Folclore, substantivo próprio, é a ciência que estuda o saber popular, que se vale do folclore = fato folclórico (substantivo comum) que é a manifestação cultural, popular, espontânea do povo gráfico, ou seja, do povo que conhece a escrita, ou seja, folclore é o fato folclórico, que é o objeto de estudo da ciência Folclore.
CARACTERÍSTICAS DO FATO FOLCLÓRICO

Para que um fato seja reconhecido e mantido como folclórico, é essencial que tenha as características de aceitação coletiva, funcionalidade, espontaneidade, intemporalidade e tradicionalidade.

Vejamos:

Aceitação coletiva - o povo deve incorporar o fato ao seu patrimônio, tomá – lo para si e mantê–lo;

Funcionalidade – ser útil, prático, Ter uma função; fatos há que, por perderem a função, deixam de ser folclóricos, passando a históricos;

Espontaneidade – surgir naturalmente, livre de condicionamentos, sem imposições;

Intemporalidade – independer do tempo, não se sabe quanto vai durar, podendo ser eterno, perene se assim o povo quiser;

Tradicionalidade – passar de geração a geração, refletir uma experiência de vida dos antepassados, mas estar presente, vivo.

Duas outras características, a oralidade e o anonimato, não são tão essenciais e, às vezes, não estão presentes dependendo do fato folclórico:

Oralidade – ser transmitido oralmente, de boca em boca, fazendo surgir as variantes ( exemplo de exceção: literatura de cordel);

Anonimato – não tem autor ou o povo já haver tomado a autoria para si, descaracterizando o autor (ex.: as músicas Cidade Maravilhosa, Negrinho do Pastoreio, que estão em processo de folclorização).

O dia a dia do gaúcho é repleto de fatos folclóricos, que vão sendo mantidos e transmitidos às novas gerações de forma espontânea e natural:

A linguagem e a literatura popular, incluindo acróstico, quadrinhas, poesia, trovas, causos, fábulas, mitos, lendas, adivinhações, anedotas, trava-línguas, pregões, ditos populares, provérbios, frases comparativas, pasquins, grafites, inscrições, " Pão-por- Deus ", cartas correntes, adágios, cadernos de questionários, de recordações, de recitas;

As crendices e superstições relacionadas ao mundo sobrenatural, demologia, bruxarias, profecias e sortes mágicas, cultos e devoções populares;

A lúdica adulta, abrangendo danças, corrida de cancha reta, jogo de osso, de bocha, do truco, cortejos, festas tradicionais (do Divino, de Navegantes, Juninas), folguedos;

A lúdica infantil, compreendendo rodas cantadas, parlendas, mnemônias, formuletos, brinquedos e brincadeiras;

As artes e técnicas como pintura, escultura, ex-votos, decoração, vestimenta e adornos pessoais, arquitetura, bonecos e brinquedos, cestaria, artesanato;

A música popular, distribuída em religiosa, de dança, acalanto, cantigas ( de beber, de roda, de festas e folguedos),canções ( intermináveis, encadeadas, mímicas), desafio, instrumentos musicais;

Os usos e costumes na agricultura, pecuária, astronomia, meteorologia, alimentação e culinária, caça e pesca, habitação, medicina caseira, benzeduras, cerimônias e rituais.
CRONOLOGIA DO FATO FOLCLÓRICO

Tendo como parâmetro, o fato folclórico pode ser classificado como nascente, vigente ou histórico. Nascente - é aquele fato que não tem ainda a característica de tradicionalidade; sua aceitação popular é inferior a 25 anos. Ex.: brincadeira de pular elástico, bambolê. Vigente – consiste em fato que continua resistindo ao tempo, com aceitação coletiva de mais de 25 anos; é dinâmico. Ex.: bombacha, chimarrão, churrasco, cinco marias, valsa, vaneira, rodas cantadas, provérbios, pandorga, bolinha de gude, etc.

Histórico – fato que já perdeu a função; não é mais vivido, mas sim cultuado, simbolizando o passado, é estático. Ex.: boleadeiras, chiripá, bota de garrão de potro, danças do Ciclo dos Fandangos.

 
PROJEÇÃO E REINTERPRETAÇÃO FOLCLÓRICA

Projeção folclórica consiste no aproveitamento dos fatos folclóricos vigentes, fora da época em que se realizam ou, ainda, fora de suas funções, para outras finalidades.

A projeção folclórica pode ter motivação política, estética, ética ou didática, ou seja, o fato folclórico tem motivação:

Política: o fato surge por interesse dos governos, que fomentam o intercâmbio cultural entre as regiões.

Estética: é comum nas artes populares como a demonstração de artesanato indígena em centros urbano.

Didática: o fato folclórico é projetado fora de seu tempo ou espaço para divulgação ou aprofundamento de estudos.

Exemplos de projeção folclórica: Fandangos em CTG de zona urbana; músicas e poesias, que utilizam temas folclóricos, bem como esculturas e pinturas; apresentação de Terno de Reis e Terno de Santos fora da data e do local onde costumam acontecer; coreografias criadas utilizando ritmos folclóricos.

Reinterpretação folclórica é a apresentação ou o aproveitamento o aproveitamento de fatos folclóricos históricos, que adquirem novo significado cultural. Através deste processo, antigas significações são atribuídas a elementos novos ou novos valores mudam a significação cultural de formas antigas.

Exemplos de reinterpretação folclórica: apresentação das danças do folclore histórico nos CTGs, as quais, em época passada, tiveram função lúdica e, hoje, têm função didática.

No ENART – Encontro de Arte e Tradição Gaúcha a entrada e a saída de uma Invernada Artística constituem-se numa Projeção Folclórica, enquanto que as danças de concurso são uma Reinterpretação do Folclore.
BIBLIOGRAFIA

BARBOZA, Maria Cândida. Aspectos de Folclore –Tradição – Cultura. C.I.O.F.,1996.

FAGUNDES, Antônio Augusto. Curso de Tradicionalismo Gaúcho. Martins Livreiro, 2ª Edição,1995.

COMISSÃO GAÚCHA DE FOLCLORE .Para Compreender e Aplicar Folclore na Escola. Porto Alegre 2000

 
NATIVISMO

Segundo Antônio Augusto Fagundes, o que caracteriza os valores do culto à tradição do Rio Grande do Sul são o nativismo, a honra, a hospitalidade, a coragem, o respeito à palavra empenhada, o cavalheirismo, além de outros, que são peculiaridades do gaúcho.

Logo, nativismo não é um culto como a tradição, mas é sim um dos valores desse culto. Pode ser definido como o sentimento de amor pelo chão onde se nasce, de onde se é nato.

Por sermos gaúchos, acreditamos que não exista povo mais nativista que o gaúcho, mas somos sabedores de que esse sentimento de amor pela nossa terra natal, a exemplo da tradição, também não é patrimônio exclusivo e peculiar de nós os gaúchos. Em nosso vocabulário, encontramos dois termos inteiramente ligados ao nativismo, que são: pago e querência. O primeiro define o lugar onde nascemos e o segundo, o lugar onde vivemos, o que não raras vezes se confunde, pois é um tanto comum nascermos e vivermos num mesmo lugar. Temos até a pretensão de afirmar, que nenhum povo ama mais o seu pago, a sua querência do que nós os gaúchos. O sentimento de amor ao Rio Grande é tão intenso entre nós gaúchos, que chegamos a ser bairristas, o que vem a ser o exagero de sentimento de amor a terra.

Edilberto Teixeira diz que "nativismo é a qualidade do nativista. É aquele que é contrário, que é infenso a estrangeiros. Tudo o que é próprio do lugar de nascimento, que é ingênito, natural, não adquirido. Em filosofia, nativismo é a teoria das idéias inatas, independentes da experiência".

O Rio Grande do Sul atualmente é sacudido por uma onda de nativismo, propulsada pelo anseio da mocidade, ávida de conhecimentos gauchescos e de novos horizontes para uma efetiva participação.

Essa onda de nativismo tem colocado o Rio Grande do Sul em admirável destaque frente às demais regiões brasileiras.

A nossa cultura, alicerçada em rumos próprios, se fortalece a cada dia, contribuindo assim para a construção de um sólido patrimônio político e social para o Rio Grande do amanhã.

E assim temos constatado uma grande parcela da moçada envolvida e contagiada pelo ideal do nativismo, o que proporciona o desenvolvimento de uma mentalidade sadia, não se deixando "poluir" pelos estrangeirismos importados, em detrimento dos costumes e tradições da nossa gente.

Com essa auto-afirmativa, o sentimento genuíno de aplauso e louvor às nossas coisas deságua no fortalecimento do nosso amor ao PAGO e a QUERÊNCIA".

A grandeza da formação histórica do Rio Grande do Sul é a força inspiradora do movimento tradicionalista gaúcho, que, aliás, é a sociedade que a cada dia tem maiores compromissos com o preservar, cultuar e propagar a tradição gaúcha de forma organizada e planificada, cujos objetivos estão consubstanciados na sua Carta de Princípios.

É notória a tendência de se chamar de nativismo a arte que nasce da terra, que fala, que canta, que enfoca e que valoriza as coisas da terra dizendo-se: poesia nativista, canção nativista, música nativista, muito embora saibamos que a expressão correta para designar a corrente artística que valoriza os temas da terra seja "regionalista gaúcha".

MARIA IZABEL T. DE MOURA
BIBLIOGRAFIA

LAYTANO, Dante – Folclore do Rio Grande do Sul – costumes e tradições gaúchas.

BARBOZA, Maria Cândida – Aspectos de Folclore -Tradição – Cultura

LAMBERTY, Salvador Ferrando

SARAIVA, Glaucus – Manual do Tradicionalista

BARBOSA LESSA, Luiz Carlos - Nativismo

FAGUNDES, Antonio Augusto – Curso de Tradicionalismo Gaúcho

TEIXEIRA, Edilberto – Tentos de uma mesma trança – publicado no jornal "Tradição" / 31 de março de 1987.

LESSA, Luiz Carlos Barbosa – Caráter Cíclico do Tradicionalismo

Nativismo – um fenômeno social do gaúcho.



SINONÍMIA E ETIMOLOGIA DO VERBETE “GAÚCHO”
 
Augusto Meyer, comentando o livro  O GAÚCHO  de José de Alencar  escreveu que “gaúcho e pião são  considerados sinônimos e, desde  logo Alencar contribuiu com mais uma hipótese para a babel das etimologias de gaúcho”. Assim pensando, cremos que nos cabe, preliminarmente, lembrar alguns conceitos de linguística. 
           
O suíço Ferdinand Saussure (1852-1913), fundador da linguística moderna, trouxe novos caminhos para o tema, graças aos seus estudos sobre a língua e a fala (langue e parole).
Para Saussure a língua foi imposta ao indivíduo, enquanto a fala é um ato particular.
A soma língua + fala resulta na linguagem.
Outro aspecto básico da doutrina saussuriana é a do signo linguístico.
O signo é o resultado de  significante mais significado .
Signo =  significante + significado
 
Significante: é a forma gráfica + forma fônica.
Significado: é o conceito, a ideia.
Toda palavra que possui um sentido é considerada um signo linguístico.
Exemplo:
“Livro” é um signo linguístico.
Quando observamos o signo “livro” percebemos que ele é a união de som, conceito e escrita, ou seja, significado e significante.
Outros exemplos de signos linguísticos:
Mar, cadeira, ventilador, cachorro, casa.
A linguística pode ser: sincrônica ou diacrônica.
Sincrônica: estuda a língua em um dado momento.
Diacrônica: estuda a língua através dos tempos.
 
 
CARACTERÍSTICAS DO SIGNO LINGUÍSTICO
Arbitrariedade: uma das características do signo linguístico é o seu caráter arbitrário. Não existe uma razão para que um significante (som) esteja associado a um significado (conceito). Isso explica o fato de que cada língua usa significantes (som) diferentes para um mesmo significado (conceito).
Então, o verbete gaúcho é um significante diacrônico e de caráter arbitrário.  Daí a variedade de significados que encontramos na grande pletora bibliográfica sobre o tema.
Jorge Luis Borges cita as mães argentinas de seu tempo de juventude, as quais advertiam suas filhas que “ si no te comportas bien  acabarás casando con um gaucho “. O mesmo Borges, escreveu que “a vida dura impôs aos gaúchos a obrigação de ser valentes“, mas de que qualquer forma, como a época pastoril de nossa história  acabou, o gaúcho lendário já não existe  e apenas sobrevive na literatura nostálgica de intelectuais citadinos, filhos e netos de estancieiros outrora prósperos ou ligados emocionalmente a eles.
Assim, informa o historiador uruguaio Fernando Assunção  que “o primeiro vocábulo que usaram os espanhóis para qualificar o nascente tipo humano  rural foi o de vagabundo, vagamundo ou vagante. Esta designação de vagabundos persiste mesmo depois de serem chamados de changadores e gaudérios e  depois que se lhes aplicou o qualificativo gaúchos.
E mais adiante, escreve Assunção:
“De todos os documentos consultados, deduzimos   que ao qualificar  de vagabundos a esses povoadores da campanha aos quais logo se denominarão de gaudérios e gaúchos, estes últimos vocábulos deverão responder  a uma semântica muito similar à inicial. Então a definição será a de maldosos (malevos), distanciados da sociedade legalmente estabelecida, com ou sem ofícios, que não conhecem patrão nem empregador nem fonte de ingressos lícitos e que andam de um lado para outro “gauderiando “ pela campanha, sem respeito ou obediência à lei e às autoridades ”. 
O já citado Augusto Meyer no seu livro “PROSA DOS PAGOS acentua que toda literatura gauchesca (que como informa J.L.Borges, foi escrita por intelectuais citadinos.FC) faz a exaltação da coragem, da nobreza do “monarca ou centauro dos pampas “fato criador de uma idealização que se deu na vida semi-bárbara dos mesmos. Percebemos um resíduo romântico  nessa espécie de retorno à natureza, através do apego ao individualismo, à ação  e vida solitárias. A permanência  desse matiz sentimental  na obra de nossos regionalistas pode ser acompanhada  em paralelo   pela evolução do vocábulo gaúcho que sintetiza as suas diversas manifestações. Não foi em vão, portanto, que a palavra perdeu o sentido primitivo para revestir-se de outro, equivocado e francamente encomiástico”.
 Paul-François Groussac (1848 — 1929) foi um escritor, historiador, crítico literário e bibliotecário franco-argentino. Homem de imensa cultura no qual Borges manteve grande admiração ao ponto de escrever um livro intitulado  LO MEJOR DE PAUL GROUSSAC. (Editora Fraterna,, B.Aires, 1981)
Numa famosa conferência  proferida em Chicago em 1893, intitulada O GAÚCHO, Groussac disse o seguinte:
“ O nome não é novo, nem tampouco a variedade étnica que este designa. Fora os relatos dos viajantes, creio que Walter Scott foi o primeiro a lançar a palavra na ampla circulação literária; mas costumava escrever guacho, americanismo que agora tem significado diferente. O grande Carlyle em um admirável ensaio sobre o doutor Francia, ditador do Paraguay - em que prodiga um pouco de humour às expensas de nossos heróis sul-americanos - desenhou a fisionomia real do gaúcho, insolente, estoico, desalinhado, em suma pitoresco, por mais que “careça amiúde de sabão”, como disse o ensaísta inglês. Este pintou como ele sabe pintar, com essa intuição aguda do visionário, esse arrojo de pincel e exuberância de cor. O tema é vasto e difuso, sobretudo para os que o estudam muito de perto e o conhecemos por todos seus aspetos variados e múltiplos. Trata-se de um grupo humano  que quase chega a ser um povo. E pelo fato de se apresentar espalhado e, por assim dizer, indefinido como o imenso teatro  que este nômade atravessa sem ocupá-lo jamais, devo limitar-me desflorar o tema demasiado vasto, sem tentar sequer aprofundá-lo, deixando a vosso conhecimento as evoluções e analogias etnográficas”.
Mais adiante , Groussac acrescenta:
“ Por seu aspeto e vestes orientais( a bombacha), se explica o fato  de que alguns escritores modernos se socorrem do vocabulário árabe  à procura da etimologia  do nome deste homem estranho que não parece ser castelhano nem derivado do francês, apesar de sua analogia. Tratando-se de uma palavra de origem desconhecida que aparece no tecido de uma língua, não se podem aplicar com segurança as leis filológicas. Então é o método histórico o que nos deve guiar.
Nunca se viu o caso de um vocábulo arábico  aparecer bruscamente na América sem haver antes aparecido e  aclimatado em solo espanhol. A palavra gaúcho nunca foi conhecida na Espanha senão por translado americano, portanto deveríamos procurar por aqui mesmo sua etimologia. A palavra guacho pertence à língua incaica e tem significado de órfão, abandonado, errante com um sentido algo pejorativo, pois se o aplica a animais criados longe da mãe. A inversão silábica – chamada metátese  - é muito frequente nos povos  de fala castelhana, daí que guacho se transformou em gaúcho por um procedimento lógico que consiste na acentuação da vogal mais forte.
Em todo o caso lhe assenta o epíteto de um tipo errante, um filho pródigo do grupo social, um outlaw como o Robin Hood das velhas lendas saxônicas, esse gaúcho tradicional e nômade  cuja longa aventura  começa em seu nascimento  e só termina com sua morte. Faz-se homem enfrentando a natureza impassível com esta noção sempre presente de que não deve e não pode contar senão consigo mesmo. O pampa imenso, sem árvores, sem caminhos trilhados, mais estéril que o oceano do velho Homero que se estende ante seus olhos, misterioso e infinito: é aí onde ele deve viver, lutar, amar e morrer”.
Por fim, diz o culto e lúcido Groussac:
“  As invasões violentas as superposições de raças atacam o léxico dos aborígenes, o qual é feito do social, mas quase nunca ferem de morte a estrutura íntima e a medula do discurso que constitui a própria índole  do pensamento, vale dizer, seu elemento antropológico e cerebral “.
UMA INTERPRETAÇÃO SOCIOLÓGICA
Julgamos que uma análise sociológica do tipo humano chamado gaúcho poderá nos auxiliar em se certificar no significado do termo e explicar assim sua vasta sinonímia. Para isto nos valeremos do sociólogo e escritor  argentino Juan José Sebreli ( 1930 -    ) autor de tão extensas e avalizadas  leituras no lindeiro país quão escassas e desconhecidas são elas por aqui.
A prolixidade do texto é proporcional ao seu importante didatismo.
“ O mito gaúcho forjou-se no processo de nacionalização do ensino e da cultura. Uma classe social que se orgulhava de sua ascendência europeia, sua cultura francesa  e seus vínculos ingleses começou a reivindicar o “ criolismo “, para diferenciar-se da massa imigratória. O apego à terra  era uma forma de menosprezar a cidade “ gringa “.
A cidade se tornava  a expressão da decadência e corrupção e o campo representava o último refúgio dos valores perdidos, o retorno à pureza da mãe terra. O desprezo pelo homem do campo, o gaúcho, foi substituído pelo repúdio às massas urbanas. O capitalismo agropecuário não podia se desenvolver sem a destruição da economia de subsistência das pequenas e médias propriedades rurais da comunidade primitiva dos gaúchos  vivendo em liberdade do pampa sem alambrados. Frequentes batidas policiais os desalojavam de seu último refúgio nas regiões desertas  e não deixaram a eles outra opção ou de tornar-se um matreiro, “gaucho malevo”, um bandido rural ou  submeter-se  à disciplina do trabalho e da lei. O gaúcho agora inofensivo, domesticado, começou a ser idealizado porque estava morto ou transfigurado em submisso peão de estância.
Esta celebração póstuma do gaúcho não podia deixar de repercutir  no âmbito das artes e das letras o que deu origem a esta nova forma literária de poesia bucólica, de idílio rural que idealizava o desaparecido mundo pré-capitalista  do pampa sem alambrados , sem estradas de ferro, sem postes  telegráficos e de luz. Seu protagonista era um gaúcho místico, uma ideia platônica “ mais uma ideia que um homem “(Guiraldes), um arquétipo contraposto ao imigrante e ao gaúcho real.
A literatura gauchesca não era uma poesia espontânea emanada da alma do homem do campo e do fundo dos tempos, segundo a versão do romantismo folclórico.  Foi criada por homens cultos, estancieiros ou funcionários públicos pertencentes às classes dominantes ou seus protegidos. Era um mundo de relações entre homens, com ausência de mulheres, onde parecia não existir a produção, nem a propriedade, nem as classes sociais e nem a política”.
Em nossa literatura regional, Cyro Martins, homem culto de classe média,
em sua trilogia do Gaúcho a Pé, ao  fugir do modelo romântico e saudosista de outros escritores gaúchos, retratou com fidelidade, honestidade e coragem o  panorama e a figura reais de nosso ex-“monarca dos pampas”. E Érico Veríssimo, pioneiramente, introduziu em sua maior e definitiva obra O Tempo e o Vento, uma estirpe de figuras femininas de grandes desempenho familiar, coragem e dignidade.
Cremos que o desenho do panorama sócio-econômico do pampa argentino, com tantos pontos de contato com o nosso, nos auxiliará na tarefa de pensarmos e talvez descobrirmos a origem etimológica do termo gaúcho, que pelo menos, nos auxiliará também em nossa real interpretação do antigo e moderno habitante de nosso do Rio Grande.
Como curiosidade , talvez importante para alguns pesquisadores, assinalamos que na obra El Gaucho do historiador uruguaio Fernando Assunção, já citado, este enumera 26 sinonímias da palavra gaúcho provenientes de línguas eurásicas e 18 denominações originadas de línguas indo-americanas.
 
Franklin Cunha
Academia Rio-Grandense de Letras
Cadeira nº 9, patrono Dr. Benjamin Franklin Ramiz Galvão.